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Memória Organizacional: guia para implementar, valorizar e inovar em sua instituição

4 de ago. de 2023
10 min de leitura

Atualizado: 31 de ago.

Entenda o conceito, conheça benefícios estratégicos e aprenda como criar projetos de memória para diferentes setores


Memoria Organizacional acervo
Acervo de cartazes do Sesc Memórias, iniciativa de memória organizacional do Sesc São Paulo

Neste cenário de constantes mudanças e avanços tecnológicos, a capacidade de reter e acessar informações valiosas torna-se uma vantagem competitiva essencial para garantir a sobrevivência e o sucesso das organizações no futuro. A memória organizacional desempenha um papel estratégico ao permitir que as instituições preservem e aproveitem de forma planejada e orientada sua história, conhecimento e experiências acumuladas ao longo do tempo.


Neste artigo, você vai descobrir o que é memória organizacional e como ela pode impulsionar o desenvolvimento de diversas instituições, desde organizações sem fins lucrativos até instituições de ensino, saúde, cultura e esporte. Você também vai entender como usar os projetos de memória organizacional de forma planejada e conhecer exemplos de instituições que já fazem isso.


A memória organizacional pode ser um pilar essencial para a sustentabilidade e o crescimento das organizações no cenário dinâmico do século XXI. Se você quer saber como, continue a leitura.


O que é memória organizacional?


A memória organizacional é a capacidade de uma instituição de preservar e utilizar o conhecimento construído ao longo de sua trajetória. Focada nas questões de gestão, ela reúne experiências e aprendizados que podem ser recuperados e reutilizados para apoiar processos de trabalho, decisões e ações no presente e no futuro.


Esse conhecimento não corresponde a tudo o que foi produzido pela organização ao longo dos anos. A memória é resultado de uma seleção intencional daquilo que pode ter valor para a instituição: problemas e soluções, projetos, tecnologias, casos, eventos, experiências, informações sobre pessoas, fornecedores e clientes, entre outras referências. O objetivo não é apenas guardar registros, mas identificar o que deve ser preservado e criar condições para que possa ser encontrado e utilizado quando necessário.


Para isso, a memória organizacional envolve processos e ferramentas que permitem preservar, organizar e tornar acessíveis essas informações. Quando incorporada à gestão, ela transforma a própria trajetória da instituição em uma fonte de conhecimento capaz de apoiar o trabalho cotidiano, dar continuidade às atividades e favorecer o aprendizado organizacional.


É comum que os termos memória organizacional, memória institucional e memória empresarial e memória corporativa sejam usados como sinônimos. Embora compartilhem de práticas e atividades semelhantes, os conceitos apresentam algumas diferenças de enfoque, relacionadas principalmente ao contexto em que a memória é construída e ao papel que desempenha para cada tipo de instituição. A seguir, vamos entender essas diferenças.


Memória organizacional x Memória institucional


Embora sejam frequentemente tratados como sinônimos, memória organizacional e memória institucional têm enfoques diferentes. A memória institucional está mais voltada à dimensão social, histórica e simbólica da trajetória de uma instituição. Ela considera os acontecimentos e experiências vividos, mas também os significados que eles assumem para os sujeitos e para a sociedade, com foco na construção da identidade, na preservação de valores e construção da cultura e no reconhecimento da atuação institucional.


Por isso, a memória institucional está relacionada a aspectos como legitimidade, reputação e vínculo com a sociedade. Sua atenção está voltada na forma como a trajetória da instituição é construída, compartilhada e reconhecida socialmente.


Memória organizacional x Memória empresarial e Memória Corporativa


A memória empresarial ou memória corporativa é uma vertente da memória organizacional voltada especificamente para empresas e corporações. A principal diferença está, portanto, no contexto em que a memória é construída e utilizada.


Vale destacar que, na literatura, memória corporativa (corporate memory) e memória organizacional (organizational memory) são frequentemente utilizados como sinônimos. Por isso, os limites entre esses conceitos podem variar de acordo com o autor e o contexto em que são empregados.


Qual a importância da memória organizacional?


A importância da memória organizacional está em sua capacidade de atuar como uma ferramenta de gestão da informação, do conhecimento e dos negócios, transformando experiências acumuladas ao longo da trajetória da organização em conhecimento útil para o presente e o futuro.


Ao preservar e tornar acessíveis informações, aprendizados e soluções construídos ao longo do tempo, a memória organizacional apoia a tomada de decisões, os processos de trabalho e a aprendizagem. Na prática, isso significa evitar que a organização precise começar do zero diante de problemas ou situações já vivenciadas. É possível recuperar experiências anteriores, identificar soluções que funcionaram e compartilhar conhecimentos que poderiam se perder com a saída ou a mudança de pessoas.


Um exemplo é o trabalho realizado pelo Centro de Memória Nestlé, que apoia a área jurídica em diferentes situações, como processos relacionados a direitos autorais e de uso de imagem, caducidade de marcas e defesas junto ao Procon. Nesses casos, a documentação histórica pode funcionar tanto como evidência jurídica quanto como fonte para construir narrativas coerentes que sustentem as posições da empresa.


A memória também pode cumprir um papel importante na continuidade e na sucessão organizacional. No caso do Memória Votorantim, por exemplo, a organização do conhecimento acumulado contribui para que informações e experiências construídas ao longo da trajetória da empresa possam ser transmitidas às futuras gerações.


O mesmo ocorreu na Porto Seguro, que estruturou seu centro de memória em um contexto de transição geracional, quando parte da família deixou a gestão executiva e passou a atuar no conselho. Nesse processo, surgiu a necessidade de tangibilizar e organizar o conhecimento acumulado ao longo da trajetória da empresa, tornando-o acessível às futuras gerações de líderes e profissionais.


A relação entre memória organizacional e resultados também aparece na literatura. Em estudo publicado em 1997, as pesquisadoras Christine Moorman e Anne S. Miner analisaram 92 projetos de desenvolvimento de novos produtos e identificaram uma relação positiva entre a memória organizacional e o desempenho financeiro de curto prazo. O estudo também mostrou que a forma como o conhecimento está distribuído pela organização pode influenciar a criatividade e o desempenho dos novos produtos.


Assim, a memória organizacional pode assumir diferentes funções de acordo com as necessidades e os desafios de cada organização, apoiando desde questões jurídicas até a continuidade e a transmissão do conhecimento entre diferentes gerações.


Memória organizacional é para quem?


Embora seja muito associada às empresas, projetos de memória organizacional podem e devem ser desenvolvidos em organizações e instituições de diferentes naturezas. Qualquer organização que produza, acumule e utilize conhecimento ao longo de sua trajetória pode se beneficiar de iniciativas para preservar, organizar e tornar esse conhecimento acessível, seja ela uma organização sem fins lucrativos ou uma instituição de ensino, saúde, cultura ou esporte.


O formato e a finalidade de um projeto de memória podem variar de acordo com as necessidades de cada organização. Conheça alguns exemplos:


1. Organizações sem fins lucrativos

Associações, câmaras de comércio, organizações não governamentais e outras entidades do terceiro setor acumulam conhecimentos, experiências e relações ao longo de sua atuação. A memória organizacional pode ajudar a preservar esse conhecimento, apoiar a continuidade das atividades e facilitar o acesso a informações importantes para a gestão.


Para celebrar seus 75 anos, a Câmara de Comércio Suíço-Brasileira (SwissCam) contou com a Raiz Projetos e Pesquisas de História para reunir depoimentos e documentos do acervo da instituição, como cartas, fotografias, relatórios e revistas. O material deu origem a um site comemorativo que apresenta a trajetória da Câmara e também recupera a participação de empresas associadas ao longo de sua história.


Ao organizar e tornar acessíveis informações que estavam dispersas em diferentes documentos e acervos, o projeto transformou esse material em uma fonte de conhecimento que pode ser consultada e utilizada pela instituição e por seus públicos.


2. Instituições de ensino

Universidades, escolas e outras instituições de ensino também acumulam um amplo conhecimento sobre suas práticas, pesquisas e experiências pedagógicas. Projetos de memória podem contribuir para preservar esse patrimônio e transformá-lo em fonte de pesquisa e aprendizagem.


Memoria Organizacional acervo historico
Vitrine com apostilas, fotografias e livros didáticos do acervo histórico do centro de memória da Escola Lourenço Castanho

Na Escola Lourenço Castanho, em São Paulo, o centro de memória reúne fotografias, cadernos pedagógicos, livros didáticos e cadernos de alunos de diferentes épocas. O acervo é utilizado pelos próprios estudantes, que visitam o espaço acompanhados de seus professores para investigar como eram as práticas de ensino e aprendizagem no passado. Nesse caso, a memória deixa de ser apenas um registro histórico e passa a ser utilizada como recurso pedagógico, permitindo que experiências e práticas de outras épocas sejam pesquisadas e comparadas com as atuais.


No Senac São Paulo, o centro de memória também reúne e divulga documentos e informações sobre a trajetória da instituição e da educação profissional no Brasil. Além de ampliar o acesso a esse conhecimento, o acervo atende demandas de diferentes áreas internas e agiliza processos e atividades do dia a dia da instituição.


3. Instituições de saúde

Hospitais, clínicas, laboratórios e outras instituições de saúde também acumulam conhecimentos relacionados à evolução de suas práticas, pesquisas, procedimentos e experiências. Projetos de memória podem organizar esse patrimônio e torná-lo acessível, apoiando pesquisas, consultas internas e a continuidade do conhecimento entre diferentes gerações de profissionais.


O Centro de Memória do Hospital Israelita Albert Einstein, criado em 2002, é responsável por analisar, organizar, preservar e divulgar o acervo histórico da instituição, reunindo documentos que registram sua trajetória e seus avanços na área da saúde. Ao tratar o acervo de forma sistemática e disponibilizar essas informações, o centro transforma documentos históricos em uma fonte de conhecimento que pode ser consultada e utilizada pela própria instituição.


4. Instituições culturais

Museus, bibliotecas, centros culturais e outras instituições do setor também produzem e acumulam conhecimento que pode ser utilizado em suas atividades. A memória organizacional pode apoiar pesquisas, curadorias, exposições, gestão de acervos e a transmissão de conhecimentos entre equipes.


Por meio da pesquisa e do tratamento de documentos históricos, o projeto Sesc Memórias fornece informações e peças do acervo para as exposições realizadas pelas unidades. Na comemoração dos 40 anos do Sesc Pompeia, por exemplo, o Sesc Memórias colaborou com a curadoria, fornecendo documentos e informações sobre a história da unidade, incluindo materiais que foram incorporados à exposição. O conhecimento preservado pelo projeto é diretamente utilizado na atividade-fim da instituição, contribuindo para a pesquisa e para a construção das narrativas apresentadas ao público.


5. Instituições esportivas

Clubes, federações, associações e outras organizações esportivas também acumulam informações e conhecimentos que podem apoiar diferentes áreas da instituição. A memória organizacional pode ser utilizada em pesquisas, comunicação, gestão e outras atividades que dependem do acesso a informações sobre a trajetória da organização.


No São Paulo Futebol Clube, o arquivo histórico atende demandas internas de áreas como marketing, comunicação e RH, além de pesquisadores, imprensa e torcedores. O acervo também subsidia o museu do clube com informações e documentos históricos e já serviu de base para publicações sobre sua trajetória. O acesso organizado ao acervo permite que diferentes áreas recuperem informações e conhecimentos acumulados ao longo do tempo para atender demandas concretas de trabalho.



Memoria Organizacional estrategico
Fac-símiles da Bíblia do São-paulino, produzido junto com o Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

A diversidade desses exemplos mostra que a memória organizacional pode ser aplicada a organizações de diferentes naturezas e tamanhos. O que muda são as necessidades e os usos que cada instituição faz do conhecimento acumulado em sua trajetória.


Como implementar um projeto de Memória Organizacional?


A implementação de um projeto de memória organizacional envolve diferentes atividades, que podem ser agrupadas em duas grandes frentes:



Frente

O que envolve

Exemplos de atividades

Organização de acervos históricos

  • tratamento

  • organização

  • preservação dos documentos e informações relevantes para a trajetória da instituição

  • definição de escopo

  • levantamento e seleção

  • recolhimento

  • higienização

  • classificação

  • catalogação

  • acondicionamento

  • digitalização

Extroversão de acervos históricos

  • disponibilização e uso:

  • de documentos

  • de dados

  • de informações

  • de experiências acumuladas pela instituição

  • exposições

  • museus

  • livros e publicações

  • bancos de dados

  • sites

  • conteúdos para redes sociais

  • brindes


As duas frentes são complementares: não é possível fazer uma boa extroversão sem antes conhecer, organizar e tratar o acervo e ao mesmo tempo, preservar documentos sem criar formas de acesso e utilização limita o potencial da memória organizacional. Por isso, o projeto deve considerar desde o início tanto a organização do acervo quanto os usos que se pretende fazer dele.


Principais desafios e como superá-los


As organizações costumam enfrentar diferentes desafios ao implantar projetos de memória organizacional. Entre eles estão:


  • dificuldade de sensibilizar as equipes sobre a importância do projeto

  • documentação dispersa

  • falta de critérios para seleção e organização

  • ausência de padrões de catalogação

  • tratamento inadequado dos acervos físicos

  • arquivos digitais armazenados em diferentes locais e formato

  • limitações de espaço para guardar documentos físicos

  • limitações de capacidade de armazenamento para os acervos digitais


Outro erro comum é começar pela tecnologia. Escolher um sistema ou digitalizar documentos antes de entender o que existe no acervo, qual é o seu valor e como será utilizado pode gerar grandes volumes de arquivos sem organização e, consequentemente, difíceis de localizar e consultar.


O primeiro passo deve ser diagnosticar o acervo, definir o escopo, os critérios e os objetivos do projeto e, principalmente, envolver e sensibilizar as equipes. Quando as pessoas compreendem o propósito do trabalho e percebem como o conhecimento organizado pode facilitar suas atividades cotidianas, a participação e a colaboração tendem a ser maiores.


É justamente nessa etapa que a atuação de profissionais especializados faz diferença. A Raiz Projetos e Pesquisas de História combina conhecimentos de arquivologia, história e biblioteconomia para realizar diagnósticos, definir escopos e critérios, desenvolver sistemas de classificação e catalogação, tratar documentos físicos e digitais e estruturar formas de acesso ao acervo.


O trabalho também envolve sensibilizar e mobilizar as equipes, por meio de palestras, campanhas internas de coleta de documentos e outras ações que ajudam os colaboradores a compreender o propósito do projeto e a reconhecer o valor do conhecimento que possuem. Além disso, a criação de projetos de extroversão ajuda a tangibilizar o trabalho realizado, dando visibilidade aos resultados e mostrando às equipes como a memória pode ser utilizada na prática.


Tecnologia e ferramentas de organização de acervos


Com o acervo diagnosticado e os critérios de organização definidos, a tecnologia passa a ser uma importante aliada do projeto. Ela pode facilitar a organização, o acesso e a localização das informações, além de ampliar as possibilidades de uso do conhecimento preservado.


Entre os recursos disponíveis estão:

  • sistemas de gerenciamento de documentos e acervos

  • bancos de dados

  • ferramentas de digitalização

  • OCR (reconhecimento óptico de caracteres)

  • armazenamento em servidores ou na nuvem

  • sistemas de preservação digital


No entanto, a tecnologia, por si só, não organiza um acervo. Um documento digitalizado, por exemplo, não se torna automaticamente pesquisável ou útil. É preciso definir critérios de identificação, classificação e descrição, além de registrar metadados que permitam compreender o que é o documento, sua origem, seu contexto e outras informações necessárias para sua localização, uso e preservação.


Por isso, a escolha das ferramentas deve partir das necessidades e dos objetivos do projeto, e não o contrário. Um acervo pequeno pode demandar soluções mais simples, enquanto grandes volumes documentais, diferentes formatos e a necessidade de acesso por várias áreas podem exigir sistemas especializados.



Contrate profissionais especializados


Um projeto de memória organizacional envolve diferentes etapas e exige conhecimentos específicos para que o acervo seja corretamente identificado, selecionado, organizado, preservado e disponibilizado. Dependendo dos objetivos e da complexidade do projeto, também pode ser necessário reunir uma equipe multidisciplinar, com profissionais de áreas como história, arquivologia, biblioteconomia, conservação e tecnologia da informação.


Contar com profissionais especializados ajuda a definir o escopo do projeto, estabelecer prioridades e escolher as metodologias e ferramentas mais adequadas às necessidades de cada organização. Além do tratamento dos acervos, esses profissionais podem apoiar a sensibilização das equipes e desenvolver formas de extroversão que transformem o conhecimento preservado em algo acessível e útil para a organização, com base em práticas de mercado atuais.


A Raiz Projetos e Pesquisas de História atua na criação e gestão de projetos de memória organizacional, desde o diagnóstico e organização de acervos até a pesquisa histórica, a extroversão e a implantação de centros de memória.


Quer preservar e, ao mesmo tempo, colocar a história e o conhecimento da sua instituição a serviço do presente e do futuro? Fale com a Raiz e descubra como estruturar um projeto de memória organizacional de acordo com as necessidades da sua organização.




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