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Pesquisa sócio-histórica para cinema e TV

Atualizado: 25 de fev.

Entenda a importância do trabalho de pesquisadores para o contexto histórico em produções audiovisuais


Pesquisa socio-historica para cinema
foto: Jake Hills

Novelas de época, filmes de guerra, documentários biográficos, comerciais retrô, séries, shows, games e vídeos educativos são alguns exemplos de como imaginação e história se entrelaçam nos bastidores das produções audiovisuais.


A pesquisa sócio-histórica para audiovisual é uma parte essencial da criação dessas produções, fornecendo precisão, autenticidade e profundidade às narrativas.


Combinando enfoques da sociologia e da história, esse tipo de estudo desvela aspectos sociais, políticos e culturais ao longo da história, pintando um retrato vívido do passado para dar vida ao presente. Por isso, uma consultoria histórica feita por pesquisadores cinematográficos tem papel fundamental na criação de ambientes visuais fidedignos e na preservação de acervos históricos.


Neste artigo, você vai descobrir a importância da pesquisa sócio-histórica na indústria cinematográfica e televisiva e como esse tipo de análise se tornou uma ferramenta essencial para a criação de conteúdo autêntico. Além disso, vai entender como a conservação e organização dos vídeos contribui para o nosso conhecimento sobre a sociedade e a função de produtoras, emissoras de TV e das agências de publicidade na preservação de acervo e da memória coletiva por meio de documentação audiovisual.


Confira agora como funciona a pesquisa sócio-histórica, quais são os erros comuns e como aplicá-la no seu projeto audiovisual.


O que é pesquisa sócio-histórica no audiovisual e para que serve?


A pesquisa sócio-histórica é uma análise qualitativa que combina conceitos e abordagens tanto da sociologia quanto da história. Seu propósito central é investigar e compreender um escopo específico - que pode ser uma instituição, uma marca, um produto ou um serviço, uma categoria ou até mesmo um determinado público ou assunto - e sua interconexão com contextos mais amplos.


Esse tipo de pesquisa busca examinar as transformações históricas das dinâmicas sociais, explorando as interações entre os aspectos políticos, econômicos e culturais em diferentes períodos de uma sociedade ou de um grupo social.


Nas produções audiovisuais, a pesquisa sócio-histórica é fundamental para a criação de conteúdos ricos em detalhes históricos e contextuais, contribuindo para uma experiência mais imersiva e consistente para o público.


No filme brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, a pesquisa foi determinante para garantir autenticidade em cada escolha estética e narrativa. A investigação histórica, conduzida por Karina Nobre e Cleodon Coelho, mobilizou mais de 30 acervos familiares em Recife e analisou dezenas de filmes dos anos 1970 para reconstruir, com rigor, a atmosfera social, política e cultural da época. Desde a seleção dos carros utilizados em cena, modelos compatíveis com o ano retratado e com a classe social dos personagens, até a ambientação urbana, os figurinos e os objetos de cena, cada elemento foi sustentado por um criterioso roteiro histórico, demonstrando que pesquisa não é detalhe estético, mas estrutura narrativa e responsabilidade com a memória.


Cena do filme O Agente Secreto. Foto: BrazilJournal
Cena do filme O Agente Secreto. Foto: BrazilJournal

Além de evitar anacronismos, a pesquisa orientou decisões dramatúrgicas, ajudando a construir atmosferas verossímeis e a fortalecer a credibilidade da narrativa. Esse cuidado evidencia que a consultoria histórica é parte estrutural do processo criativo, assegurando que a obra dialogue com o passado de forma responsável e qualificada, ampliando sua força estética e seu impacto cultural.


Veja como a pesquisa sócio-histórica pode ser aplicada a uma ampla gama de formatos:


Seriados e filmes

Seja um drama histórico, um filme biográfico, uma série documental ou de ficção, a pesquisa sócio-histórica é crucial para garantir a precisão histórica e conformidade das narrativas, ambientação e personagens. Antes mesmo da definição da trama, a pesquisa pode gerar insights para a definição dos melhores caminhos a serem seguidos para uma obra audiovisual destinada a um público específico.


Erros históricos em séries e filmes não são raros e, muitas vezes, tornam-se alvo de críticas ou até de ironias por parte do público e de especialistas. Em produções como Coração Valente, por exemplo, foram utilizadas roupas e símbolos, como os kilts, que só surgiram séculos depois do período retratado, além de representar personagens históricos convivendo em tempos e situações que não correspondem à realidade documentada.


Trata-se de um caso em que uma pesquisa sócio-histórica mais rigorosa poderia ter ajustado fatos, cronologias e elementos de cultura material, preservando a força dramática sem comprometer a coerência histórica. Sem um embasamento consistente, produções audiovisuais podem propagar imprecisões que impactam não apenas a experiência estética, mas também o entendimento cultural e social de determinado período, o que reforça por que esse tipo de pesquisa é uma ferramenta indispensável no audiovisual.


Novelas

Da mesma forma que nos seriados e nos filmes, a pesquisa sócio-histórica desempenha um papel importante na construção de enredos, personagens, cenários e figurinos de novelas, itens essenciais proporcionar uma ambientação realista à obra.


Inclusive é muito comum que os escritores de novelas sejam acompanhados desde o início da concepção da trama por uma equipe de pesquisadores que respaldam as abordagens de temas específicos. Foi o caso dos temas médicos em Viver a Vida, de Manoel Carlos, veiculada na Rede Globo, ou os temas policiais de Poder Paralelo, de Lauro César Muniz, veiculada na rede Record.


Além de mapear os temas e tendências, indicar direções e levantar fontes relevantes antes de a novela começar a ser escrita, os pesquisadores cinematográficos ficam de plantão para atender os autores em caso de dúvidas, para escrever algumas cenas ou reescrever os originais.


Para encontrar ou contratar esses profissionais, é possível recorrer a associações do setor, produtoras especializadas, escritórios de pesquisa ou indicações de especialistas dentro do próprio mercado audiovisual. Um exemplo é a PAVIC (Associação de Pesquisadores de Audiovisual), que reúne profissionais altamente qualificados e com ampla experiência em cinema, televisão, publicidade e documentário.


A contratação pode ocorrer por projeto, por etapa (pesquisa inicial, consultoria continuada ou acompanhamento em set) ou em formato de equipe fixa ao longo da produção. Os custos variam conforme a complexidade do tema, o recorte temporal, o volume de fontes a serem analisadas e o tempo de dedicação exigido, podendo ir desde consultorias pontuais até contratos completos que acompanham todas as fases, da pré-produção à finalização. Em geral, o processo envolve briefing detalhado, definição de escopo, cronograma, entrega de relatórios e acompanhamento contínuo junto à equipe criativa.


Jogos

Nos videogames, especialmente para aqueles que são históricos, a pesquisa sócio-histórica é importante para recriar cenários mais detalhados e genuínos, oferecendo uma experiência mais envolvente e autêntica aos jogadores.


A série Assassin's Creed é um exemplo. Cada jogo transporta os jogadores para uma época e local históricos específicos, como a Itália Renascentista, o Antigo Egito, a Revolução Americana, a Era Viking e outros períodos da história mundial. A pesquisa histórica das equipes de desenvolvimento é profunda e muitas vezes conta com uma parceria com historiadores.


pesquisa historica para jogos: Assassins Creed
Assassin's Creed é um exemplo de jogo de videogame cuja riquesa de detalhes demanda uma pesquisa sócio-histórica robusta

O historiador Maxime Durand, que atuou como consultor e pesquisador, explica que “os jogos da franquia Assassin’s Creed são inspirados na história, mas não são reconstituições fiéis ou documentários”. Ainda assim, a busca por rigor contextual é constante: segundo ele, “a busca por informações históricas como inspiração é fundamental para a produção”, especialmente nas fases iniciais, quando são definidos cronologias, personagens, ambientes e sistemas sociais que darão sustentação ao universo narrativo.


Ao comentar o impacto cultural da série, Durand destaca também o potencial formativo dos games: “A melhor parte é ver como as pessoas se empolgam com a história depois de jogarem um videogame”. Para ele, o formato interativo torna o passado mais acessível e desperta a curiosidade do público, que muitas vezes passa a pesquisar por conta própria os contextos históricos apresentados.


Esse modelo evidencia como, também nos games, a pesquisa histórica qualificada é determinante para equilibrar liberdade criativa e responsabilidade histórica. Além da jogabilidade, a série destaca-se pela atenção aos detalhes como figurinos, costumes, cultura material, arquitetura, profissões e personagens históricos, elementos que ampliam a verossimilhança e proporcionam uma experiência muito mais imersiva aos jogadores ao transitarem por diferentes épocas do passado.


Publicidade e marketing

Em campanhas publicitárias ou comerciais, a pesquisa sócio-histórica é essencial para garantir a confiabilidade na representação de épocas passadas, se for este o caso, ou ainda auxiliar nas estratégias considerando a história da marca com seu público e os gatilhos de memória afetiva.


A campanha #PresasNos80, do Guaraná Antarctica, tinha como objetivo sensibilizar o público para um dado alarmante: o investimento feito no futebol feminino em 2021 equivalia ao destinado ao futebol masculino em 1980. Para tornar essa desigualdade tangível, o comercial construiu a ideia de que as jogadoras estavam literalmente “presas” naquela década, recorrendo à moda, aos dispositivos eletrônicos, à ambientação visual e até às tipografias características do período.


Nesse contexto, a pesquisa histórica foi importante para o resultado da campanha, porque não se tratava apenas de aplicar filtros estéticos “retrô”, mas de reconstruir com precisão referências culturais, visuais e materiais dos anos 1980, desde cortes de cabelo e modelagens de uniforme até objetos de cena, linguagem gráfica e trilha sonora coerentes com o período.


Esse rigor garantiu autenticidade à narrativa e fortaleceu o impacto da mensagem: ao reconhecer visualmente a década, o público compreendia de forma imediata o contraste temporal proposto pela campanha. Assim, a pesquisa funcionou como base estratégica e criativa, assegurando verossimilhança histórica e ampliando a potência crítica da peça publicitária.


Pesquisa socio-historica para TV
Comercial Presas nos 80 do Guaraná Antarctica

Vídeos educativos

Nesses formatos a pesquisa sócio-histórica é usada para transmitir informações corretas sobre eventos, culturas e contextos históricos, auxiliando na aprendizagem e compreensão do público.


Canais como o Nerdologia, que frequentemente aborda temas históricos com base em bibliografia especializada, e o Leitura ObrigaHISTÓRIA, dedicado à divulgação científica em História, demonstram como o rigor metodológico pode ser adaptado a uma linguagem acessível sem perder consistência acadêmica.


No cenário internacional, o CrashCourse também se destaca ao estruturar seus roteiros a partir de consultoria especializada e revisão de conteúdo. Em todos esses casos, a pesquisa organiza a narrativa didática, seleciona fontes confiáveis e contextualiza os acontecimentos, evitando simplificações excessivas ou anacronismos que poderiam comprometer o aprendizado.


Programas de TV

Tanto para os programas jornalísticos como para os programas de entretenimento televisivo, a pesquisa sócio-histórica serve como uma fonte valiosa de informações para os apresentadores e sua audiência.


Um exemplo é o TV Teca, quadro do Caldeirão com Mion, exibido pela TV Globo, que transforma a própria história da emissora em um game-show. Para viabilizar um formato como esse, a pesquisa envolve etapas como levantamento e organização de acervos audiovisuais, consulta a documentos institucionais, roteiros e registros de programação, checagem de datas e marcos históricos, além de entrevistas com profissionais que participaram das produções originais.


Esse projeto transforma a memória institucional em conteúdo dinâmico e acessível ao grande público.


memoria audiovisual
O quadro TV Teca do Caldeirão com Mion é um game-show sobre a história da Globo

Por que a pesquisa sócio-histórica é importante para cinema e TV?


A pesquisa sócio-histórica tem uma contribuição estratégica para o cinema e para a TV, porque impacta diretamente a qualidade estética, narrativa e cultural das produções. Entre seus principais benefícios, destacam-se:


  • Precisão histórica: garante que fatos, ambientes, linguagem e costumes estejam alinhados ao contexto da época retratada, evitando anacronismos e inconsistências

  • Autenticidade e credibilidade: contribui para a criação de obras mais críveis e respeitadas tanto pelo público quanto pela crítica

  • Engajamento do público: proporciona experiências mais imersivas e emocionalmente envolventes

  • Profundidade narrativa: incorpora nuances históricas, sociais e culturais que enriquecem roteiro e personagens

  • Valor educacional: amplia o potencial das obras como referência em contextos formativos e debates sociais


Na prática, isso significa contextualizar com rigor cenários, figurinos, linguagem e comportamentos, criando ambientes visual e culturalmente coerentes com o período retratado. A pesquisa também fornece camadas de significado ao enredo, contribuindo para personagens mais complexos e para conflitos narrativos mais densos.


Além disso, a pesquisa sócio-histórica permite a abordagem sensível e contextualizada de temas sociais e políticos, evitando simplificações, anacronismos, isto é, a inserção de elementos fora de sua época original, e a reprodução de estereótipos.


Representações estereotipadas tendem a reforçar visões distorcidas sobre povos, culturas e contextos históricos, comprometendo a complexidade das realidades retratadas. Uma pesquisa qualificada atua justamente como instrumento crítico, prevenindo essas distorções e contribuindo para construções narrativas mais responsáveis, plurais e respeitosas das diferentes experiências históricas.


A pesquisa sócio-histórica também pode mapear assuntos emergentes, públicos específicos, marcas e contextos institucionais, contribuindo para o planejamento estratégico de obras audiovisuais mais conectadas às demandas da sociedade e capazes de gerar insights criativos consistentes desde a fase de concepção.


Como aplicar as pesquisas sócio-históricas nas produções audiovisuais?


Na Raiz, as pesquisas sócio-históricas utilizam quatro métodos de investigação:


  1. estudo em fontes bibliográficas

  2. análise de documentos históricos

  3. pesquisa de campo em lugares de memória

  4. coleta de relatos orais, também chamada de história oral


Cada um desses métodos atende a metas e abordagens únicas, e sua combinação pode variar conforme os objetivos estabelecidos no projeto, bem como as limitações de tempo e recursos financeiros disponíveis.


Os pesquisadores cinematográficos que desenvolvem as pesquisas sócio-históricas são os responsáveis por apoiar a direção de arte, os produtores, os figurinistas e os roteiristas nas fases de pré-produção, de produção e de pós-produção. A eles cabe também a definição dos métodos de investigação a serem utilizados.


Memória audiovisual: acervos e preservação histórica


Além da importância do papel da pesquisa nos projetos audiovisuais, também temos que lembrar a relevância das novelas, das séries, dos jornais televisivos, dos comerciais, dos filmes de ficção e dos documentários como fontes de informação, como documentos históricos, enfim, registros sobre uma determinada época.


Em entrevista para o Sesc, Mônica Almeida Kornis, doutora em Ciências da Comunicação na área de Cinema, Rádio e Televisão pela ECA, responsável pelo acervo audiovisual do Centro de Pesquisa e Documentação da FGV (RJ), afirma que "o cinema e a televisão são ao mesmo tempo espelho e reflexo da sociedade e da história".


Nesse sentido, a conservação e organização dos acervos audiovisuais são fundamentais para as próprias pesquisas sócio-históricas, já que servem de fonte valiosa de dados, de informações e de imagens sobre um determinado tema.


As produtoras, agências de publicidade e emissoras de televisão podem e devem investir na preservação de seus acervos que, uma vez disponibilizados para os pesquisadores internos, podem servir de ferramenta estratégica para o desenvolvimento dos novos estudos.


Além disso, o acesso a esses conteúdos pelos pesquisadores acadêmicos e público geral torna essas obras parte da memória da sociedade, trazendo recortes das visões, dos costumes, das sensibilidades, das ideias de uma época ou sobre um tema.


Esse processo, porém, exige atenção aos direitos autorais e ao direito de imagem. No Brasil, a utilização de obras intelectuais é regulamentada pela Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, enquanto a proteção da imagem e da honra é assegurada pela Constituição Federal do Brasil e pelo Código Civil Brasileiro.


Portanto, antes de disponibilizar acervos para consulta, é imprescindível contar com profissionais de licenciamento para identificar titulares de direitos, negociar autorizações e garantir o uso ético e legal dos materiais. Uma etapa burocrática, que atenta para o compromisso com a responsabilidade jurídica e com o respeito à memória e às pessoas envolvidas.


A TV Cultura tem um Centro de Documentação que é responsável pela preservação, organização, digitalização e pela disponibilização de seu acervo audiovisual. É possível encontrar matérias jornalísticas, programas da emissora e telecursos de várias disciplinas armazenadas no local, acessíveis para pesquisa. Para usar este acervo, basta entrar em contato pelo formulário: https://cultura.uol.com.br/acervo/?id=4.


Profissionais e empresas especializadas podem fazer uma diferença significativa tanto na qualidade das pesquisas sócio-históricas quanto na orientação a respeito da salvaguarda das obras audiovisuais como patrimônio. Se você considera esse tipo de trabalho estratégico, conte com a experiência da Raiz Projetos e Pesquisas de História para desenvolver esse tipo de projeto.


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