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Pesquisa sócio-histórica para Carnaval

Atualizado: 15 de fev.

Entenda como surgem as ideias para os enredos, alegorias e fantasias das escolas de samba e a importância de resguardar a memória de cada celebração anual


Carnaval
Foto: Matheus Frade

O Carnaval, enraizado na identidade e na diversidade cultural do Brasil, é uma celebração que transcende fronteiras, enriquecendo a expressão e perpetuando os valores da nossa sociedade. Nos bastidores dessa festa emblemática, a pesquisa sócio-histórica emerge como uma ferramenta essencial, moldando desde os enredos até as alegorias, enriquecendo cada detalhe dos desfiles de escolas de samba.


Além disso, a preservação da memória do Carnaval - em suas mais variadas manifestações - não apenas assegura a continuidade dessa tradição, mas também oferece insights valiosos sobre a cultura e a identidade brasileiras, servindo de fonte para diferentes tipos de estudo.


Neste artigo, você vai descobrir o que é uma pesquisa sócio-histórica e para o que ela serve, vai compreender o potencial estratégico que ela tem para os desfiles das escolas de samba, vai saber sobre a importância de preservar a documentação histórica das escolas de samba, dos blocos, dos trios, dos desfiles e cortejos e também vai conhecer alguns grupos carnavalescos que já fazem projetos de memória institucional.


Este artigo explora o papel vital da pesquisa sócio-histórica no Carnaval, destacando seu impacto na concepção dos desfiles e na preservação da rica tapeçaria cultural que envolve essa celebração anual. Se você tem interesse no Carnaval como patrimônio, continue a leitura.


O que é e para que serve a pesquisa sócio-histórica


A pesquisa sócio-histórica é uma metodologia qualitativa que investiga em profundidade um tema, uma categoria, um público, um grupo social, uma pessoa, uma empresa, uma instituição, uma marca ou um produto.


Por meio de análises bibliográficas, documentais, pesquisa de campo e história oral, esse tipo de estudo visa não apenas compreender o objeto em questão, mas também explorar suas interconexões com o contexto histórico e social. Essa abordagem revela nuances significativas, proporcionando um entendimento mais rico e integrado do assunto explorado.


No âmbito cultural, a pesquisa sócio-histórica desempenha um papel essencial, servindo como uma ferramenta para aprimorar a autenticidade, relevância e impacto positivo das atividades, eventos e festas. Ao se aprofundar na história e nas interações sociais, essa pesquisa não apenas enriquece a compreensão do passado, mas também oferece insights valiosos para orientar ações culturais presentes e futuras.


O Carnaval brasileiro, em suas múltiplas manifestações, é em si um grande objeto de estudo para escritores, jornalistas, historiadores, sociólogos e antropólogos. A preservação da documentação histórica das escolas de samba, dos blocos de rua, dos trios elétricos, dos cortejos, dos bailes de salão, dos desfiles de maracatu e de bonecos gigantes é crucial para garantir a disponibilidade de fontes de pesquisa para esses estudiosos, permitindo que a história do Carnaval seja contada em toda a sua diversidade.


Além disso, os desfiles das escolas de samba, cujo estereótipo está intrinsecamente ligado à ideia de brasilidade, têm seu ponto de partida nas pesquisas sócio-históricas, que desempenham uma função importante em todas as etapas de pré-produção.


Qual a função da pesquisa sócio-histórica nos desfiles das escolas de samba?


As pesquisas sócio-históricas enriquecem a representação cultural, histórica e social dos desfiles de Carnaval na avenida. Elas fundamentam a criação das narrativas dos desfiles, promovendo uma experiência mais enriquecedora para o público, fortalecem a identidade e o pertencimento das comunidades envolvidas, contextualizam historicamente os elementos apresentados durante os desfiles, educando e conscientizando o público sobre aspectos culturais, sociais e históricos, e fornecem subsídios para a inovação criativa, combinando tradições do passado com questões contemporâneas para manter a relevância dos desfiles.


A realização desse tipo de estudo é uma fase estratégica no planejamento e na realização das apresentações. A pesquisa e os pesquisadores e carnavalescos nela envolvidos orientam diferentes fases da pré-produção do desfile, desde a escolha do tema até a elaboração das fantasias:


Escolha do tema: O processo de escolha do tema começa logo após o término do carnaval do ano anterior, e algumas agremiações realizam reuniões com suas comunidades para colher sugestões e opiniões. Também é comum haver um concurso interno para a definição do assunto a ser tratado. A identificação da escola com a narrativa que será apresentada é muito importante no Carnaval. Cada escola de samba possui suas raízes e peculiaridades, e o tema costuma estar sintonizado com a identidade da agremiação. A pesquisa sócio-histórica pode inspirar a escolha do tema do desfile ao destacar eventos, personalidades, lendas, protestos, expressões culturais ou aspectos históricos relevantes para a comunidade ou região da escola de samba.


Desenvolvimento do enredo: O enredo narra a história que será contada na avenida, incorporando elementos históricos, culturais e sociais que envolvam e emocionem o público. Com base na pesquisa bibliográfica, documental, na história oral e pesquisa de campo, os pesquisadores resgatam dados, informações e imagens de referência para desenvolver um enredo com o tema escolhido.


Em 2023, a Imperatriz Leopoldinense venceu o Carnaval carioca trazendo para a avenida o enredo O Aperreio do Cabra Que o Excomungado Tratou com Má-querença e o Santíssimo Não Deu Guarida de autoria do carnavalesco de Leandro Vieira. A história contada era sobre a chegada do cangaceiro Lampião ao céu e ao inferno e mesclava o conteúdo fantástico dos cordéis com fatos históricos.


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Cartaz do enredo da Imperatriz Leopoldinense, vencedora do carnaval carioca em 2023

Em entrevista para a TV Cultura, o carnavalesco Jorge Freitas contou que “o enredo pode ser histórico, patrocinado, CEP (falar sobre algum lugar)”. Também afirmou que para chegar até a escolha do enredo as “pesquisas são longas, mas o tempo varia muito dependendo do que a escola vai contar. O que demanda mais tempo de pesquisa é um enredo histórico, onde é necessário se aprofundar no assunto.”

Criação do samba-enredo: O samba-enredo é a trilha sonora e a música que a escola vai cantar para identificar o enredo. As pesquisas sócio-históricas fornecem também subsídios para a composição das letras do samba-enredo, trazendo dados e informações relevantes, além de referências que estejam alinhadas com o enredo escolhido. O processo se dá por concurso: inspirados no assunto, vários autores apresentam, justificam e defendem seus sambas-enredos. O samba-enredo escolhido é o que tem a melhor letra, ritmo, cadência e que vai transmitir da melhor maneira a mensagem que a escola deseja. Em 2002, o Salgueiro levou para a Sapucaí um samba-enredo que contava sobre o sonho de voar e a história da aviação. Na letra estão presentes menções ao mito de Ícaro, ao renascentista Leonardo da Vinci, às diferentes máquinas de voar criadas pelos humanos, ao Santos Dumont e o primeiro voo em Paris:


O sonho está no ar, vai decolar

Com o Salgueiro

Dando asas à imaginação

Alcançou a imensidão

O orgulho de ser brasileiro

Este sonho foi de Ícaro,

Renasceu em Da Vinci,

Pipas chinesas, aves de papel,

Era mais leve que o ar

Nos balões a flutuar,

Cruzava mares, dirigível pelo céu


Hoje eu vou Salgueirar, da avenida voar,

Com a bandeira do meu país

Vou com Santos Dumont,

Tirando onda em Paris


Surgiram heróis pioneiros,

Que marcaram história na aviação

Com a tecnologia romperam o espaço,

Barreira do som

Riscando o céu de vermelho,

Estende o tapete, lá vem meu Salgueiro

Herdeiro do ar, comandante na folia,

Tamanho orgulho te cantar na academia


Vou zoar,

Nem melhor, nem pior, amor

O Salgueiro vai eternizar

Vida e vôo de um sonhador




Criação das alas: As alas representam os capítulos da história que a escola conta para os espectadores da avenida. O encadeamento lógico na sucessão das alas costuma ter uma sequência cronológica e a pesquisa sócio-histórica pode auxiliar tanto na definição de cada ala, como na concepção da narrativa visual delas.

Confecção de fantasias e alegorias (carros alegóricos): Ao estudar os trajes de diferentes períodos históricos ou interpretar elementos culturais específicos, a pesquisa contribui tanto para a criação de fantasias genuínas e visualmente impactantes quanto para o desenvolvimento das alegorias. Os artistas plásticos, arquitetos, engenheiros e escultores trabalham em conjunto para transformar conceitos abstratos em elementos cenográficos. Durante esse processo, esses profissionais podem obter orientações e insights dos pesquisadores dos estudos sócio-históricos, destacando detalhes precisos que refletem a época, os eventos ou os personagens abordados no desfile.


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Terceiro carro alegórico do desfile da Mangueira em 2019 tratava do Quilombo dos Palmares. Foto: Rodrigo Gorosito/G1

Carnaval e memória institucional


Após o encerramento dos desfiles de 2024, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz postou em suas redes sociais: “O que a história oficial silencia, o Carnaval explode na avenida.” Neste sentido, entre os temas de destaque deste Carnaval estiveram o povo Yanomami pela Salgueiro, o livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves pela Portela, e a história do Hip Hop pela Vai Vai. Em seu post, Lilia continua: Passado não se apaga. Há sempre um tribunal da história que vem de alguma maneira cobrar pelo que se invisibilizou. Depois da pandemia e de tantos anos de autoritarismo, a avenida mostrou como é preciso lembrar de não esquecer.”


Como vimos, as pesquisas sócio-históricas são importantes para a concepção e para a produção dos desfiles, mas finda a celebração é preciso salvaguardar a memória do Carnaval que passou. Preservar a documentação histórica das escolas de samba, blocos de rua, dos festejos diversos do Carnaval brasileiro é garantir fontes para pesquisa sobre os mais diversos temas: sobre a cultura brasileira, sobre as comunidades e públicos envolvidos no evento, sobre os costumes e valores de uma época, sobre o território e sobre as instituições envolvidas.


Além disso, os projetos de organização e extroversão de acervos históricos das instituições relacionadas ao Carnaval reforçam a identidade e a reputação dessas organizações, fortalecem os seus vínculos com a comunidade, com a imprensa, com seus públicos, apoiam a gestão e a administração, além de cumprirem o papel de responsabilidade histórica e social.


O Cacique de Ramos, um dos mais tradicionais blocos carnavalescos do Rio de Janeiro, foi fundado em 1961 e mantém um centro de memória desde 2014. Nele, são desenvolvidas atividades de tratamento técnico da documentação histórica da agremiação, atendimento à pesquisa, projetos de história oral e assessoramento à presidência e diretoria nos assuntos pertinentes à cultura e memória. Para conhecer mais acesse o site: https://cmcaciquederamos.com.br/.


reserva técnica - centro de memória - cacique de ramos
Reserva técnica do Centro de Memória do Cacique de Ramos. Foto: Centro de Memória Domingos Félix do Nascimento

A Casa do Carnaval, em Salvador (BA), é outro exemplo de iniciativa destinada a salvaguardar a história dessa celebração. Inaugurada em fevereiro de 2018, a Casa tem como proposta ser um museu do Carnaval e contar a história da festa sob diversos recortes da cultura popular, das transformações sociais e da formação da identidade baiana.


Casa do Carnaval - Salvador
Casa do Carnaval, em Salvador (BA). Foto: Rebeca Borges/Correio Braziliense

Também em Salvador, o Centro de Documentação e Memória do Olodum, é outra importante iniciativa de memória institucional relacionada ao Carnaval. Fundado em 1979, o Olodum era originalmente um bloco carnavalesco que foi se transformando ao longo de sua trajetória em um grupo cultural, uma escola de tambores e uma organização não governamental reconhecida como de utilidade pública pelo governo do estado da Bahia.


Marketing no Carnaval


As empresas, marcas e produtos que participam do Carnaval também podem se beneficiar da memória empresarial nos momentos de celebração. O primeiro jingle da história do Brasil era inclusive uma marchinha de Carnaval chamada Chopp em Garrafa, composto em 1934 por Ary Barroso, com letra de Bastos Tigre e cantada por Orlando Silva.


Segundo artigo do Meio e Mensagem, a peça publicitária “(...) foi criada para anunciar uma novidade, a cerveja em garrafa de vidro. Uma grande sacada para a época, pois até então a bebida só era vendida em barris de madeira. Com a garrafa, os foliões podiam levar a cerveja na mão enquanto brincavam o Carnaval pelas ruas da cidade.”


Essa descoberta ocorreu durante uma pesquisa realizada pela Raiz Projetos e Pesquisas de História para uma agência de publicidade, com o objetivo de identificar os laços históricos mais significativos entre a marca Brahma e o Carnaval.


Explorar o vínculo histórico das marcas com a festa pode ser uma estratégia de marketing interessante. A Nestlé já realizou exposições temporárias com o tema do Carnaval em seu centro de memória, sempre durante o mês de fevereiro. O objetivo destas ações é impactar os colaboradores da empresa, ao apresentar as campanhas históricas das marcas que incorporaram a celebração em seus anúncios, cartazes, comerciais, brindes e embalagens.


Apresentar essas campanhas já realizadas pela Nestlé dentro do contexto da maior festa do ano do país mostra a relevância de suas marcas, ao mesmo tempo em que gera uma aproximação com o cotidiano dos colaboradores.


Carnaval com história


A pesquisa sócio-histórica e os trabalhos de organização e de extroversão de acervos são duas engrenagens que impulsionam o Carnaval. A primeira atua como uma fonte de inspiração e conhecimento, fornecendo subsídios para a criação dos enredos, alegorias, fantasias e até mesmo para a composição dos sambas-enredo, enriquecendo a representação cultural e histórica das celebrações.


Por outro lado, os esforços de organização e extroversão de acervos garantem a preservação da memória do Carnaval, permitindo que suas tradições, histórias e contribuições culturais sejam documentadas e compartilhadas com as gerações presentes e futuras. Assim, ambas as atividades desempenham papéis complementares na promoção e no fortalecimento dessa importante manifestação cultural brasileira.


Pesquisadores profissionais e empresas especializadas podem fazer a diferença tanto nas pesquisas sócio-históricas quanto na orientação sobre a organização e extroversão de acervos históricos das escolas de samba, dos blocos e de agremiações vinculadas ao Carnaval. Se você valoriza esse tipo de trabalho, confie na experiência da Raiz Projetos e Pesquisas de História para desenvolver seu projeto com sucesso.


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