Patrimônio histórico e memória empresarial: como as organizações preservam a história
Atualizado: 8 de out.
Acervos, documentos, objetos, relatos e saberes também contam a história das organizações e dos contextos em que elas atuam

Quando falamos em patrimônio histórico, é comum pensarmos em casarões coloniais, igrejas centenárias, monumentos, cidades históricas e objetos antigos preservados em museus. São imagens que nos remetem a algo distante, de outro tempo, preservado ao longo de décadas ou de séculos. Mas, quando ampliamos o olhar, percebemos que o patrimônio histórico está muito mais perto de nós do que parece.
Fotografias, objetos, cartas, roupas, registros de práticas e conhecimentos também podem guardar valores históricos e culturais. Nas empresas e instituições, esses vestígios ajudam a contar a trajetória da própria organização, mas também a história dos setores em que atuam, dos territórios onde estão presentes e das relações que constroem ao longo do tempo.
Neste artigo, vamos mostrar como a memória de empresas e instituições pode ser entendida também como patrimônio histórico, o que pode ser preservado e por que isso importa. Ao longo do texto, vamos falar sobre patrimônio material e imaterial, preservação de acervos e, principalmente, sobre a responsabilidade das organizações ao resgatar, pesquisar e contar suas próprias histórias.
O que é patrimônio histórico?
A palavra patrimônio vem do latim patrimonium, derivado de pater, pai. A ideia de patrimônio está ligada, desde sua origem, àquilo que é recebido como herança e transmitido de uma geração para outra. Com o tempo, esse sentido foi ampliado e patrimônio também passou a designar aquilo que uma sociedade reconhece como parte de sua história e de sua cultura e que deseja transmitir às próximas gerações.
Portanto, patrimônio histórico é aquilo que ajuda a contar e compreender a história de uma sociedade. Podem ser lugares, objetos, documentos, conhecimentos, práticas ou outros vestígios do passado.
O que é considerado patrimônio também muda ao longo do tempo. Novas pesquisas e novas formas de olhar para o passado podem revelar outros significados e fazer com que determinados bens, práticas e documentos sejam valorizados de outras maneiras.
No Brasil, patrimônio histórico faz parte de um conceito mais amplo: o de patrimônio cultural. A Constituição Federal de 1988 considera patrimônio cultural os bens materiais e imateriais que são referências para a identidade, a ação e a memória dos diferentes grupos que formam a sociedade brasileira. Entram aí tanto edificações, monumentos e documentos quanto saberes, celebrações, expressões culturais e modos de fazer.
Alguns desses bens recebem reconhecimento e proteção do poder público por meio de instrumentos como o tombamento, o registro e o inventário. É o caso de edifícios e conjuntos históricos protegidos pelo tombamento, como o Conjunto Urbanístico de Brasília, e de saberes e modos de fazer reconhecidos como patrimônio imaterial, como o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, em Vitória (ES).

Mas um bem pode ter valor histórico ou cultural mesmo sem esse reconhecimento oficial. Nas empresas e instituições, uma fotografia antiga, uma máquina, um conjunto de documentos ou uma prática de trabalho podem guardar informações importantes sobre a trajetória da organização e sua relação com os setores, territórios e grupos com os quais se relaciona. Identificar esses materiais e saberes, compreender seu significado e cuidar deles é parte do trabalho de construir e preservar a memória institucional ou de memória organizacional.

Memória empresarial e institucional: o que são e por que importam
Se patrimônio histórico diz respeito àquilo que ajuda a contar a história de uma sociedade, os acervos documentais das organizações também podem ter valor histórico e fazer parte desse patrimônio. É aí que entram a memória empresarial e a memória institucional, voltadas à pesquisa e à preservação da história de organizações de diferentes perfis: empresas, entidades governamentais, ONGs, associações, escolas, instituições de saúde, esporte e tantas outras.
Projetos de memória institucional podem contribuir para:
Fortalecer a identidade e a reputação, valorizando a história de marcas, produtos, serviços e da própria instituição;
Estreitar vínculos, aproximando a organização de colaboradores, clientes, associados, parceiros e outros públicos;
Apoiar a gestão e a governança, garantindo acesso a informações e conhecimentos acumulados ao longo do tempo, contribuindo para decisões e estratégias e dando transparência à trajetória da organização;
Construir narrativas baseadas em fatos, com documentos, objetos, relatos e outros registros que ajudam a contar a história da organização de forma consistente e contextualizada;
Exercer responsabilidade histórica, reconhecendo a participação da organização na história dos setores, territórios e comunidades com os quais se relaciona.
Para isso, é preciso pesquisar, organizar, preservar e dar acesso aos acervos. Fotografias, objetos, cartas, atas e outros documentos precisam ser identificados e tratados para que possam ser consultados pelas diferentes áreas da organização e também compartilhados com outros públicos. A extroversão pode acontecer por meio de exposições, publicações, plataformas digitais, ações educativas e outras iniciativas.
Esses acervos podem guardar tanto bens materiais quanto conhecimentos e práticas que fazem parte da história das organizações.
Patrimônio material e imaterial: o que pode ser preservado?
O patrimônio histórico pode ser material ou imaterial. Há coisas que podemos guardar e preservar fisicamente e outras que precisam ser preservadas por meio do registro e da transmissão. Essa divisão ajuda a entender o que pode ser preservado nas empresas e instituições, embora, na prática, as duas dimensões estejam muito ligadas.
O que é patrimônio material?
O patrimônio material é formado por aquilo que podemos ver, tocar e preservar fisicamente. Nas empresas e instituições, esses bens estão espalhados pelas sedes e fábricas, guardados em gavetas, armários e depósitos ou até nas casas de colaboradores e consumidores. Entre exemplos de patrimônio histórico empresarial estão máquinas, equipamentos, produtos, embalagens, uniformes, objetos e tantos outros documentos da história da organização.
O que é patrimônio imaterial?
O patrimônio imaterial está relacionado ao que as pessoas sabem, fazem e transmitem. Nas empresas e instituições, esses saberes intangíveis estão presentes em técnicas, práticas, conhecimentos profissionais, formas de produção, procedimentos, rituais e celebrações que fazem parte da história da organização. As entrevistas de história oral podem ajudar a registrar esses conhecimentos e experiências, transformando aquilo que está na cabeça das pessoas em relatos tangíveis que podem ser preservados e compartilhados.
Patrimônio material | Patrimônio imaterial |
Pode ser visto, tocado e preservado fisicamente. | Está nos conhecimentos, práticas e modos de fazer que as pessoas sabem, fazem e transmitem. |
Pode estar em sedes, fábricas, gavetas, armários, depósitos e até nas casas de colaboradores e consumidores. | Está nas pessoas e nas relações entre elas, podendo ser transmitido entre diferentes gerações de profissionais. |
Máquinas, equipamentos, produtos, embalagens, uniformes, documentos, fotografias e outros objetos da história da organização. | Técnicas, práticas, conhecimentos profissionais, formas de produção, procedimentos, receitas, rituais e celebrações. |
Patrimônio material e imaterial estão relacionados. Uma máquina antiga, por exemplo, é um bem material, enquanto o conhecimento necessário para operá-la, mantido e transmitido entre profissionais, é um saber imaterial. Preservar o patrimônio histórico de uma organização, muitas vezes, significa cuidar tanto daquilo que permanece fisicamente quanto dos conhecimentos e práticas que dão sentido a esses bens.
Por que as empresas e instituições devem preservar sua memória?
Conhecer a própria história também permite compreender melhor o presente. Decisões, mudanças, crises, projetos e experiências acumuladas ao longo do tempo formam um repertório que pode ajudar a interpretar situações atuais e recuperar aprendizados de outros momentos.
Foi a partir dessa perspectiva que a Raiz foi contratada pelo Sistema OCB para fortalecer o cooperativismo por meio de sua história e memória. O trabalho envolveu o mapeamento de acervos, a sistematização de informações e a construção de narrativas capazes de aproximar esse patrimônio das organizações e das pessoas. A experiência também deu origem à Solução Legado, uma metodologia para apoiar cooperativas na identificação, organização e ativação de suas memórias, transformando o passado em um recurso para o presente e para o futuro.
Há ainda uma dimensão que ultrapassa a própria organização. Empresas e instituições fazem parte da história dos setores em que atuam, dos territórios onde estão presentes e das pessoas com quem se relacionam. Seus acervos podem preservar fontes para futuras pesquisas, registrar conhecimentos que poderiam desaparecer e ajudar a compreender transformações econômicas, sociais e culturais.
Um exemplo é o Nestlé Centro de Memória, cuja coordenação é realizada pela Raiz. Seu acervo preserva não apenas a trajetória da Nestlé, mas também registros que ajudam a contar histórias mais amplas: da culinária brasileira, dos territórios onde a empresa esteve presente, da indústria de alimentos e de cadeias produtivas como as do café e do leite. Assim, a memória de uma organização também pode se tornar fonte para compreender transformações da sociedade, da economia e da cultura.

Olhar para essa trajetória também permite fazer perguntas que ajudam a aprofundar a pesquisa:
Como a organização chegou até aqui?
Quais decisões foram determinantes?
Quais pessoas contribuíram para essa construção?
Quais práticas permaneceram e quais foram transformadas?
Como a organização se relacionou com os diferentes contextos históricos em que esteve inserida?
Preservar a memória, portanto, não significa apenas guardar documentos sobre o passado. Significa manter disponíveis fontes que ajudam a compreender a trajetória da organização e o contexto histórico do qual ela faz parte.
Responsabilidade histórica e patrimônio: o papel das organizações na preservação da memória coletiva
Uma organização não existe isolada da sociedade. Ela faz parte da história das comunidades com as quais se relaciona, de seus clientes, fornecedores, parceiros, colaboradores e dos territórios onde atua. Por isso, quando pesquisa, organiza, preserva e torna acessível sua própria história, também pode contribuir para a construção da memória dos contextos sociais dos quais faz parte.
É esse o sentido de responsabilidade histórica. Como explica Karen Worcman, fundadora do Museu da Pessoa::
Pois ao compreender o potencial de conhecimento que a história de uma empresa possui, percebe-se que, ao externá-la, a empresa faz muito mais do que uma ação de comunicação ou de Recursos Humanos. Ela constrói e desenvolve para a sociedade parte da memória do país.
Isso não significa que todo acervo empresarial seja, automaticamente, patrimônio histórico ou patrimônio cultural. Uma empresa pode ser proprietária de seus documentos e manter sua documentação como um ativo institucional privado. O valor histórico de um acervo, por si só, não transforma esse conjunto em patrimônio público.
A questão é outra: o que acontece quando esses acervos são pesquisados, preservados e colocados à disposição da sociedade? Quando uma organização permite que seus documentos, objetos, relatos e conhecimentos sejam conhecidos e consultados, eles passam a cumprir também uma função social. Podem se tornar fontes para pesquisadores, estudantes, profissionais e comunidades interessadas em compreender a história de uma empresa, de um setor, de um território ou de um período.
É nesse movimento que a memória empresarial pode contribuir para o patrimônio histórico e cultural. Não pela propriedade do acervo, mas pelo valor histórico que ele guarda e pela possibilidade de esse conhecimento ser acessado, pesquisado e compartilhado.
Isso também exige responsabilidade sobre a forma como essa história é construída. Fazer memória institucional e empresarial não é apenas decidir o que será lembrado. É assumir responsabilidade pela forma como pessoas, acontecimentos e relações serão apresentados. Um projeto de memória não precisa construir uma narrativa celebratória ou uma história perfeita. Precisa ser uma história pesquisada, contextualizada e capaz de reconhecer diferentes experiências e perspectivas.
Uma pesquisa de memória deve, portanto, considerar diferentes vozes: colaboradores e ex-colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros, comunidades e outros grupos que participaram dessa trajetória. Também precisa lidar com conflitos, mudanças, contradições e aspectos difíceis da história. Preservar a memória não é esconder o que incomoda, mas criar condições para compreender o que aconteceu e os contextos em que as decisões foram tomadas.
A preservação, portanto, não termina na guarda do acervo. É preciso pensar em como esse patrimônio documental poderá ser acessado e utilizado. A extroversão por meio de exposições, plataformas digitais, publicações, pesquisas e ações educativas amplia o acesso a essas fontes e permite que diferentes públicos produzam novos conhecimentos a partir delas.
Como resume o Centro de Memória Bunge:
…quando inserida em seu contexto, a documentação conta a história da empresa, mas também a história da indústria, do Brasil e dos brasileiros.

É essa dimensão pública que interessa quando falamos em responsabilidade histórica. Uma organização pode ser proprietária de seu acervo, mas os documentos que produziu também podem guardar informações relevantes para compreender a história da sociedade. Tornar essas fontes acessíveis é uma forma de reconhecer essa dimensão e contribuir para que a memória empresarial deixe de estar restrita à própria organização e possa fazer parte da memória coletiva.
Como estruturar políticas para preservação de acervos corporativos
Preservar um acervo de forma consistente exige mais do que organizar documentos e guardar objetos. É preciso definir critérios, responsabilidades e procedimentos para que esses materiais sejam cuidados ao longo do tempo. Uma política de preservação ajuda a organização a transformar iniciativas pontuais em uma prática contínua de gestão da memória.
De forma geral, esse trabalho pode começar por:
Diagnóstico do acervo: identificar o que existe, onde está e em que condições se encontra;
Avaliação de relevância: definir o que tem valor histórico, institucional, cultural ou estratégico e deve ser preservado;
Definição de políticas de gestão e acesso: estabelecer como os acervos serão organizados, preservados e consultados;
Definição de responsabilidades: determinar quem cuida do acervo e quais são suas atribuições;
Capacitação das equipes: preparar profissionais e colaboradores para reconhecer, cuidar e encaminhar documentos e outros materiais de interesse histórico;
Definição de indicadores: acompanhar se as ações de preservação estão sendo realizadas e quais resultados estão produzindo;
Revisão periódica: avaliar e atualizar a política conforme a organização, seus acervos e suas necessidades se transformam.
Estruturar políticas eficazes para a preservação de acervos corporativos é fundamental para garantir que a história da organização seja documentada, valorizada e transmitida para as futuras gerações.
Parceiros especializados podem apoiar esse processo desde o diagnóstico e a organização dos acervos até a realização de entrevistas de história oral, a definição de políticas de preservação e a criação de produtos culturais, educativos e institucionais.
Na Raiz Projetos e Pesquisas, trabalhamos com pesquisa sócio-histórica, história oral, organização e extroversão de acervos e projetos de memória institucional. Nosso trabalho busca transformar arquivos, relatos e outros vestígios da trajetória das organizações em conhecimento organizado, contextualizado e acessível.
Investir na preservação do patrimônio histórico de uma empresa é uma forma de transformar experiências e conquistas em ativos estratégicos, promovendo uma cultura organizacional mais sólida e conectada com suas raízes. Se sua organização quer conhecer, organizar e preservar sua história, entre em contato conosco.
Perguntas Frequentes
1. O que é patrimônio histórico?
Patrimônio histórico é um conjunto de bens materiais e imateriais que representam a identidade, a cultura e a memória de uma sociedade, sendo transmitidos entre gerações. Pode incluir edifícios, monumentos, documentos, objetos, saberes e práticas culturais.
2. Qual a diferença entre patrimônio histórico, cultural, material e imaterial?
O patrimônio histórico está relacionado à memória de acontecimentos importantes e ao desenvolvimento de uma sociedade. O patrimônio cultural abrange todos os bens que expressam a identidade cultural. Patrimônio material são bens físicos (prédios, objetos), enquanto o imaterial inclui tradições, saberes e práticas.
3. Por que é importante preservar o patrimônio histórico em empresas?
Preservar o patrimônio histórico empresarial fortalece a cultura organizacional, valoriza a trajetória da empresa, contribui para a reputação e diferenciação da marca, além de apoiar a gestão do conhecimento e inspirar colaboradores.
4. Quais são exemplos de patrimônio histórico em empresas?
Exemplos incluem máquinas antigas, documentos fundadores, registros fotográficos, produtos históricos, uniformes, rituais internos, celebrações tradicionais e depoimentos de colaboradores veteranos.
5. O que diz a legislação brasileira sobre patrimônio histórico?
No Brasil, o patrimônio histórico é protegido por leis federais, estaduais e municipais. O IPHAN é o órgão responsável pelo tombamento e proteção de bens históricos. A Constituição Federal de 1988 reconhece a importância do patrimônio cultural e histórico para a sociedade.
6. Quais são os passos para preservar o patrimônio histórico de uma organização?
Os principais passos são: diagnóstico do acervo, avaliação de relevância, definição de políticas de gestão e acesso, capacitação de equipes, monitoramento contínuo e revisão periódica das práticas de preservação.
7. Qual a diferença entre memória institucional e patrimônio histórico?
Memória institucional diz respeito à história, aos registros, aos conhecimentos e às experiências de uma organização. Esses acervos podem ser privados e pertencer à própria instituição.
Patrimônio histórico, por sua vez, diz respeito a referências que têm valor para a compreensão da história da sociedade. Um acervo empresarial pode contribuir para esse patrimônio quando seus conteúdos têm relevância histórica, são pesquisados, preservados e colocados à disposição da sociedade.
Assim, ter valor histórico não transforma automaticamente um acervo privado em patrimônio histórico. O acesso, a preservação e o reconhecimento de seu valor social são aspectos importantes nessa relação.
8. Como a digitalização pode ajudar na preservação do patrimônio histórico?
A digitalização facilita o acesso, a proteção e a disseminação de documentos, imagens e registros históricos, ampliando o alcance das informações para públicos diversos.





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