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Memória no cooperativismo: história, valor e gestão

Descubra como a memória fortalece a identidade, a cultura e a gestão das cooperativas


Fotografia dos fundadores da Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale (Rochdale Society of Equitable Pioneers), 1844. Fonte: site da Coopercam
Fotografia dos fundadores da Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale (Rochdale Society of Equitable Pioneers), 1844. Fonte: site da Coopercam

O cooperativismo surgiu da união de pessoas em torno de objetivos comuns. Essa trajetória foi construída por decisões coletivas, experiências compartilhadas, desafios superados e histórias que ajudaram a transformar o cooperativismo em um dos maiores movimentos econômicos e sociais do mundo. Preservar essa história é preservar também os valores e princípios, os conhecimentos e a identidade que sustentam as cooperativas até hoje.


Em um cenário de transformação digital, renovação das lideranças e crescente preocupação com transparência e sustentabilidade, preservar a memória deixou de ser apenas uma iniciativa cultural para se tornar uma ferramenta de gestão. Afinal, organizações que conhecem sua própria trajetória conseguem compreender melhor sua identidade, aprender com suas experiências e construir o futuro sem perder de vista aquilo que lhes dá sentido.


Neste artigo, você vai entender o que é memória institucional no cooperativismo, conhecer os diferentes elementos que compõem esse patrimônio, compreender por que ele é estratégico para cooperativas e cooperados e descobrir práticas que ajudam a preservar esse legado para as próximas gerações.


O que é memória no cooperativismo


A memória no cooperativismo é o conjunto de registros, conhecimentos, experiências e narrativas que preservam a trajetória das cooperativas e do próprio movimento cooperativista. Para além de ser uma lembrança do passado, ela fortalece a identidade, transmite aprendizados e garante a continuidade dos valores e princípios que orientam a cooperação. Por isso, a memória é uma ponte entre passado, presente e futuro.


Nas cooperativas, essa memória assume um papel estratégico. Ela apoia a gestão, fortalece a governança, orienta a tomada de decisões, preserva conhecimentos acumulados ao longo do tempo, reforça a cultura cooperativista e o sentimento de pertencimento entre os cooperados. Preservar a memória é também garantir que a história da organização continue gerando valor para as próximas gerações.


O que compõe a memória de uma cooperativa

A memória de uma cooperativa é construída por diferentes elementos. Ela não está apenas nos documentos oficiais, está também nas pessoas, nos conhecimentos compartilhados, nas práticas do dia a dia e nos símbolos cooperativistas. É a integração desses diferentes registros que fortalece a cultura da cooperativa e garante a continuidade de sua história.


Os documentos e registros do cotidiano também são memória

Os documentos produzidos no dia a dia registram decisões, comprovam direitos e preservam a trajetória da cooperativa. Além de apoiar a gestão e garantir transparência, eles constituem fontes para compreender sua história.


A memória de uma cooperativa pode estar registrada em diferentes tipos de documentos e suportes, como:


  • Documentos administrativos e de governança: atas, estatutos, regimentos, relatórios, ofícios e correspondências

  • Documentos iconográficos e audiovisuais: fotografias, vídeos e gravações de áudio

  • Materiais de comunicação: cartazes, folhetos, convites, campanhas, folders e outras peças gráficas

  • Publicações e documentos bibliográficos: livros, pesquisas, manuscritos, jornais, boletins, revistas, catálogos e publicações institucionais

  • Documentos cartográficos e técnicos: plantas, mapas e projetos

  • Objetos tridimensionais: maquinários, móveis, imóveis, troféus, embalagens, brindes, indumentárias e outros objetos que ajudam a contar a história da cooperativa

  • Documentos digitais: apresentações, planilhas, documentos de texto, e-mails, conteúdos publicados em sites, blogs e redes sociais, além de outros arquivos nato digitais


O National Co-operative Archive, principal centro de guarda e pesquisa da história do movimento cooperativo mundial, em Manchester (Reino Unido), ilustra bem essa diversidade. Em um vídeo de apresentação de sua reserva técnica, é possível conhecer um acervo formado por registros comerciais, correspondências, jornais e revistas, fotografias, materiais publicitários, embalagens, filmes, livros e outros documentos que ajudam a contar a história do cooperativismo. Este caso evidencia que a memória de uma cooperativa é construída por diferentes tipologias documentais, cada uma contribuindo para preservar aspectos distintos de sua trajetória.

Vídeo do Co-operative Heritage Trust apresentando alguns dos principais tipos documentais que compõem um acervo histórico.
Vídeo do Co-operative Heritage Trust apresentando alguns dos principais tipos documentais que compõem um acervo histórico.

A memória também vive nas pessoas

Nem tudo o que constrói uma cooperativa está registrado em documentos oficiais. Muitos conhecimentos permanecem com as pessoas e são transmitidos por meio de histórias, experiências e aprendizados compartilhados.


Fazem parte dessa memória:

  • relatos de cooperados

  • histórias de fundação

  • experiências e vivências coletivas

  • conhecimentos transmitidos no dia a dia

  • objetos e lembranças pessoais


O livro Memórias de Quatro Décadas, lançado pela Unimed Teresina (primeira cooperativa de trabalho médico do estado do Piauí), em 2025, reúne documentos, fotografias e registra relatos de cooperados e dirigentes que participaram da construção da cooperativa desde sua fundação, em 1983. Esses relatos preservam experiências, conhecimentos e perspectivas que dificilmente seriam encontrados apenas nos documentos oficiais, tornando-se um importante instrumento de educação cooperativista e de fortalecimento da identidade institucional.


Publicação institucional da Unimed Teresina que reúne e preserva a memória dos 40 anos da cooperativa. Foto: Comunicação Unimed Teresina
Publicação institucional da Unimed Teresina que reúne e preserva a memória dos 40 anos da cooperativa. Foto: Comunicação Unimed Teresina

Outro exemplo é o tear de Matthew Fowlds (1806–1907), último membro da Fenwick Weavers' Society (Sociedade dos Tecelões de Fenwick), preservado no acervo do Auckland Museum. O objeto não conta apenas a história de seu proprietário, mas também da cooperativa da qual fez parte e de um capítulo importante das origens do cooperativismo.


Tear utilizado por Matthew Fowlds, preservado como parte da memória da Fenwick Weavers' Society e das primeiras experiências cooperativas. Fonte: Acervo do Auckland Museum.
Tear utilizado por Matthew Fowlds, preservado como parte da memória da Fenwick Weavers' Society e das primeiras experiências cooperativas. Fonte: Acervo do Auckland Museum.


Esses exemplos mostram que a memória vive nas pessoas e em suas experiências, e que depoimentos, objetos e lembranças pessoais são fundamentais para preservar trajetórias e manter vivo o legado cooperativista.


Cultura também é memória

A memória também se manifesta na cultura cooperativista, ou seja, na forma como os valores e princípios do cooperativismo são vividos no cotidiano. Ela está presente nos símbolos, nas práticas, nos rituais e nas formas de convivência que fortalecem o sentimento de pertencimento e mantém vivo o legado da cooperativa.


Ela se expressa por meio de:

  • valores e princípios cooperativistas

  • rituais e celebrações

  • práticas educativas

  • linguagem e formas de convivência

  • símbolos e identidade visual


Um dos símbolos mais tradicionais do cooperativismo é a colmeia. Presente em emblemas, edifícios históricos e instituições ligadas ao movimento, ela representa a união, a organização coletiva e a cooperação entre indivíduos em torno de um objetivo comum. Assim como as abelhas trabalham de forma coordenada para o bem da colmeia, o cooperativismo valoriza a contribuição de cada pessoa para fortalecer o grupo e promover o bem comum.


Ao longo da história, a colmeia foi adotada por diversas organizações cooperativistas, como no emblema do Centro Nacional de Estudos Cooperativos, criado em 1953 com a inscrição em latim Fratres in unum ("irmãos em um"), no logotipo da Co-operative Heritage Trust, instituição de caridade independente do Reino Unido dedicada à preservação do patrimônio histórico do movimento cooperativista e responsável pela gestão do Rochdale Pioneers Museum e do National Co-operative Archive, assim como na fachada da Lancaster and Skerton Equitable Industrial Co-operative Society, sociedade cooperativa de consumo inaugurada em 1903, no Reino Unido.


Emblema do Centro Nacional de Estudos Cooperativos (1953)
Emblema do Centro Nacional de Estudos Cooperativos (1953)


Essas iniciativas demonstram que os símbolos também preservam memórias e ajudam a transmitir, de geração em geração, os valores que sustentam a cultura cooperativista.


Por que a memória importa para cooperativas e cooperados


A memória produz impactos que vão muito além da preservação da história. Quando integrada à estratégia da cooperativa, ela fortalece sua identidade, qualifica a gestão, aproxima as pessoas e amplia sua contribuição para a sociedade. Esses benefícios podem ser compreendidos a partir de quatro dimensões.


Reforço da identidade e da reputação

Conhecer a própria trajetória fortalece a identidade da cooperativa e torna mais clara sua razão de existir. Ao preservar e comunicar sua história, seus valores e suas conquistas, a organização reforça sua reputação, amplia a confiança de cooperados, colaboradores, parceiros e comunidade e evidencia o impacto positivo do cooperativismo.


Reforço dos vínculos com cooperados e demais públicos

A memória aproxima pessoas. Documentos, fotografias, relatos e depoimentos ajudam cooperados, colaboradores e demais públicos a compreenderem a trajetória da organização, fortalecendo o sentimento de pertencimento e o compromisso com seus objetivos. Compartilhar histórias também é uma forma de reconhecer quem ajudou a construir a cooperativa e manter vivos seus valores.


Ferramenta de gestão da informação e do conhecimento

Uma memória bem organizada fortalece a governança e a gestão do conhecimento. Documentos como atas, estatutos, regimentos e relatórios preservam decisões, asseguram a continuidade administrativa, apoiam processos de auditoria e compliance e reduzem a perda de conhecimento em momentos de transição. Mais do que registrar o passado, esses acervos subsidiam decisões no presente e no futuro.


Responsabilidade histórica e social

As cooperativas fazem parte da história das comunidades onde atuam. Preservar sua memória significa também reconhecer e valorizar as transformações econômicas, sociais e culturais que ajudaram a construir ao longo do tempo.


O Mapa do Patrimônio Cultural do Cooperativismo, lançado em 2025 em parceria com organizações como a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), o National Cooperative Documentation Center (NCDC) e o Sistema OCB - Organização das Cooperativas do Brasil, por exemplo, reúne sítios históricos de diferentes países e evidencia que a memória cooperativista é um patrimônio coletivo, cuja preservação fortalece o legado do movimento e inspira novas gerações.


Como preservar a memória no cooperativismo: práticas e metodologias


Preservar a memória exige planejamento. Embora cada cooperativa tenha necessidades específicas, algumas etapas são fundamentais para orientar a construção de um projeto de memória. A seguir, apresentamos as principais delas.


Diagnóstico: conhecer antes de preservar

Todo projeto de memória deveria começar com um diagnóstico. Antes de definir as ações, é preciso identificar onde estão os registros históricos, em que estado de conservação se encontram, quais histórias ainda precisam ser documentadas e quem são as pessoas que podem contribuir com conhecimentos sobre a trajetória da cooperativa. Esse levantamento orienta a definição dos objetivos, do escopo e das prioridades do projeto.


Organização de acervos: dar ordem à memória

Depois do diagnóstico, é hora de organizar o patrimônio documental, o acervo histórico da cooperativa. Essa etapa envolve a identificação, classificação, catalogação, digitalização e acondicionamento dos diferentes tipos de registros, físicos e digitais, garantindo sua preservação, recuperação e acesso ao longo do tempo. Um acervo bem organizado também fortalece a gestão da informação e facilita futuras pesquisas e ações de comunicação.


Pesquisa sócio-histórica: compreender para contextualizar

Os documentos contam parte da história, mas compreender a trajetória de uma cooperativa exige ir além deles. A pesquisa sócio-histórica reúne e interpreta informações provenientes de documentos, fotografias, periódicos, bibliografia, acervos públicos e privados, permitindo contextualizar acontecimentos, compreender transformações ao longo do tempo e construir uma narrativa consistente sobre a organização e sua relação com a comunidade.


Na Raiz, essa pesquisa combina diferentes metodologias, como pesquisa bibliográfica, pesquisa em fontes primárias, visitas e viagens técnicas a lugares de memória relacionados ao tema e projetos de memória oral, permitindo reunir diferentes perspectivas e construir narrativas históricas mais completas e contextualizadas.


Um exemplo dessa metodologia foi a pesquisa sócio-histórica realizada pela Raiz para o Sistema OCB sobre as origens do cooperativismo no Brasil e no mundo. O projeto reuniu uma equipe multidisciplinar de historiadores, sociólogos e bibliotecários e articulou diferentes frentes de investigação: pesquisa bibliográfica, levantamento de fontes primárias em acervos públicos e privados, visitas técnicas a lugares de memória e entrevistas de memória oral. O cruzamento dessas evidências permitiu produzir uma narrativa historicamente consistente, capaz de contextualizar a formação e a evolução do cooperativismo em diferentes períodos e territórios.


Memória oral: registrar experiências e saberes

Nem todos os acontecimentos foram registrados em documentos. Por isso, a memória oral é uma etapa fundamental para registrar experiências, conhecimentos e percepções que, até então, existiam apenas na memória de fundadores, cooperados, dirigentes, colaboradores e demais pessoas que participaram da construção da cooperativa. Esses relatos complementam as fontes documentais, ampliam a compreensão sobre a trajetória da organização e preservam saberes que poderiam se perder com o tempo.


Extroversão: compartilhar também é preservar

Um projeto de memória só cumpre plenamente seu papel quando o acervo é colocado em circulação. Na Raiz, chamamos esse processo de extroversão: o ato de dar visibilidade aos acervos, de iluminá-los, de dar a ver, transformando-os em conhecimento, cultura e experiências capazes de conectar as pessoas à história da cooperativa.


Exposições, publicações, centros de memória, ações educativas, documentários, podcasts, linhas do tempo e conteúdos digitais são algumas das formas de compartilhar esse patrimônio com cooperados e com a comunidade. Ao transformar a memória em conhecimento e cultura, a cooperativa fortalece o sentimento de pertencimento e mantém seu legado vivo para as próximas gerações.


O Memorial Coamo, da Cooperativa Agroindustrial Coamo, maior cooperativa agrícola da América Latina, localizada em Campo Mourão (PR), é muito mais do que um espaço reservado para guardar objetos e documentos. O memorial transforma a trajetória da cooperativa em uma experiência imersiva, combinando pesquisa histórica, tecnologia e interatividade para aproximar cooperados, colaboradores, estudantes e visitantes da história da Coamo, de seu fundador, Dr. Aroldo Gallassini, e do próprio cooperativismo.


A iniciativa demonstra como a memória pode deixar de ser apenas um acervo e se tornar uma ferramenta de educação cooperativista, fortalecimento da identidade e construção de legado.


Legado do cooperativismo


Zelar pela memória da sua cooperativa não é um enfeite nostálgico. Cuidar da memória é fortalecer o próprio movimento cooperativista. É por meio dela que a história permanece viva, que os valores encontram sentido no presente e que a identidade cooperativista continua sendo transmitida às novas gerações. A memória conecta pessoas, inspira decisões, fortalece a educação cooperativista e garante que cada cooperativa reconheça seu papel em uma trajetória muito maior do que sua própria história.


Em um cenário de rápidas transformações sociais, econômicas e tecnológicas, preservar a memória também é um compromisso com o futuro. Cada documento organizado, cada fotografia identificada, cada depoimento registrado e cada história compartilhada contribuem para manter vivo um patrimônio que pertence não apenas às cooperativas, mas à sociedade. Afinal, preservar a memória cooperativista é preservar as ideias, os valores, os princípios e as experiências que ajudaram a construir um dos mais importantes movimentos de desenvolvimento econômico e social do mundo.


Se hoje, cooperados, cooperativas e instituições escrevem o próximo capítulo dessa história, também compartilham a responsabilidade de garantir que ele possa ser conhecido pelas gerações que virão. Afinal, o legado que deixaremos amanhã depende da memória que decidimos preservar hoje.


Transforme a memória da sua cooperativa em um legado


Na Raiz Projetos e Pesquisas de História, acreditamos que a memória é um ativo estratégico capaz de fortalecer a identidade, a cultura, a governança e o legado das cooperativas. Desenvolvemos projetos de pesquisa sócio-histórica, organização de acervos, memória oral, centros de memória, publicações, exposições e ações de extroversão que transformam a história em conhecimento, pertencimento e valor para diferentes públicos.


Quer iniciar um projeto de memória na sua cooperativa? Entre em contato com a Raiz e descubra como transformar a trajetória da sua organização em um patrimônio vivo para as próximas gerações.



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